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Quando ser “bonzinho ou boazinha” o tempo todo nos enfraquece.

  • Foto do escritor: Natalia Fioravante
    Natalia Fioravante
  • 24 de out. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 5 dias




Tenho certeza de que você já se pegou numa situação em que gostaria de ter dito não, mas não conseguiu. Que em algum momento gostaria de ter expressado algo que sabia que não seria aceito pelas pessoas ao seu redor. Então guardou aquilo para si, se convencendo de que não era tão importante assim, e acabou concordando com a maioria.


Você acabou fazendo algo que não desejava, e se viu numa situação que não tinha nada a ver com você — tudo para não desagradar, ou para não lidar com a sensação de talvez não ser aceito. Saiba que você não está sozinho: em algum momento da vida, todos nós acabamos aceitando, fazendo ou concordando com algo que não queríamos. Às vezes por causa das circunstâncias, às vezes porque parece que a situação fugiu do nosso controle e concordar com tudo parece mais fácil. Vez ou outra, é verdade, temos mesmo que fazer coisas que não desejaríamos — isso faz parte da vida. A questão é fazer isso o tempo todo, em prol de passar uma boa imagem de "bonzinho" ou "boazinha". Isso não é nada legal para você mesmo, e vou explicar por quê.


Consigo entender o receio de receber críticas ou ser julgado pelo que se é, fala ou faz. Ninguém quer ser julgado — todos queremos pertencer a algum grupo, seja familiar, de trabalho ou de amigos. Mas, se queremos ser autênticos e verdadeiros com nós mesmos, temos que abrir mão de algumas coisas. Uma delas é não agradar a todo instante. Às vezes corremos o risco de sermos incompreendidos em nossas decisões e atitudes, e essa não é uma sensação muito boa.


Ser verdadeiro consigo mesmo não deixa de ser um risco, porque nossa verdade pode ser diferente de um padrão estabelecido — e isso pode gerar bastante medo e desconforto. Mas tenha em mente que desagradar o outro também faz parte da vida. Torna-se pesado demais carregar o fardo de ser bom demais com o outro o tempo todo.

Lembra quando somos crianças e queremos a aprovação dos nossos pais? Queremos ser amados pelo que somos, e receber atenção deles pelo que fazemos — isso, de certa forma, faz parte do desenvolvimento de uma criança. Sentir-se querido dá segurança para continuar o processo de crescimento. Mas o tempo passou, e você é um adulto agora. Não precisa mais da aprovação contínua que precisava quando era menina ou menino. Ou será que isso ainda acontece por aí, às vezes de forma inconsciente?


Talvez deixar de lado essa criança que busca aprovação a custo de si mesma seja doloroso. Isso pode fazer parte de um processo de individuação — uma certa separação que precisamos fazer dos nossos pais, em algum momento da nossa maturação, para sermos nós mesmos no mundo. Assim, meio imperfeitos, com dúvidas, sem muita garantia de como é "caminhar com as próprias pernas". Existe um certo temor de não sermos aprovados, e não há nada de errado nisso até certo ponto. O problema é quando abrimos mão do que somos, e do que é importante para nós, só para sermos o "bonzinho" ou a "boazinha" — aí acabamos nos machucando e nos enfraquecendo.

Pode haver várias razões para agir desse modo, e não é minha intenção esgotá-las aqui — cada indivíduo é único, e não há regras quando se trata da história de cada um. Mas posso deixar alguns pontos de reflexão:


  • Pode existir uma dependência emocional da qual você não tem consciência. Talvez você ache que "caminhar com as próprias pernas" é muito desafiador, gerador de angústia — e por isso precise do outro o tempo todo para se firmar na vida, para se sentir seguro ou segura.

  • Pode ser também que, por conta disso, você tenha se tornado um controlador. Não desagradando o outro, você garante que o afeto e a atenção estarão sempre ali — existe uma ideia de controle nisso também, um ganho da sua parte em ser "bonzinho".

  • Ou ainda o seu ego — aquela instância do psiquismo responsável por regular sua presença na vida — pode estar cobrando de você desempenhos adequados, te fazendo acreditar que nunca pode errar ou se atrapalhar.

  • As mulheres podem sentir mais dificuldade do que os homens, porque foram ensinadas a ajudar, a ser "boazinhas", a se enquadrar num papel de "mulher de valor" — sempre amorosa e cuidadora.


Essas reflexões são só um convite para você parar e pensar: será que dá para ser "bom" a qualquer custo, mesmo custando muito de si mesmo?


Você se enfraquece quando não valida a própria verdade. Pode até ganhar a aprovação alheia, mas perde algo de outro lado: sua forma mais autêntica de ser no mundo.


Não é errado querer ser agradável e aceito — mas existe uma medida. E essa medida é não se anular, não se esquecer de si só para responder ao que você acredita que esperam de você. Não é pesado isso?


Perguntas como "o que eu ganho não desagradando o outro?" ou "o que espero da outra pessoa em troca?" importam nessa hora. Mas, além do que já mencionei aqui, podem existir outros fatores que te levam a esse lugar com frequência — e só a terapia pode te ajudar a se aprofundar nisso, porque cada pessoa é única, e sua história também.


Sei que é um tema complexo, que não se esgota fácil, porque mexe com uma questão meio polêmica na nossa sociedade: a crença de que pensar em si mesmo faz parecer que os outros não têm importância — que somos "egoístas" ao nos colocarmos num lugar onde validamos o próprio desejo. Aqui entra em jogo uma certa desconstrução do que aprendemos: colocar nossas necessidades ao lado das necessidades de outras pessoas, e estabelecer nossos próprios limites quando necessário.


O processo de individuação leva tempo, e cada um tem o seu. Não é sempre simples assumir a própria verdade e sustentá-la — mas dá para começar aos poucos, com pequenas decisões. Como dizer que não quer ir a algum lugar quando não tem vontade, em vez de ceder para não ser "chato". Com o tempo, isso vai ficando menos difícil — embora, numa sociedade em que ser padrão é visto como bonito, quem se diferencia por pensar ou sentir diferente da maioria acabe gerando algum desconforto.


E é nessa hora que você ganha ao sustentar o que deseja, num exercício diário de compromisso consigo mesmo — se fortalecendo na autoestima que vai adquirindo nesse processo. Às vezes não é fácil, mas pode valer muito a pena.


*arte Helena Pérez Garcia






 
 
 

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