De tudo que podemos fazer por nós mesmos
- Natalia Fioravante

- 25 de jul. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de jul.

De tudo que podemos fazer por nós mesmos, o mais importante é estar presente para aquilo que somos — atentos às nossas possibilidades e limites. Não adianta querer ser aquilo que não nos cabe. Talvez consigamos fazer ou ser diferentes por um tempo, para o outro, para o mundo. Mas, lá na frente, teremos — por bem ou por mal — que nos defrontar com a nossa verdade.
Pelo nosso bem, podemos começar hoje, sem grandes revoluções. Ir aos poucos, assumindo que não queremos, que não podemos. Admitir para nós mesmos que existe uma parte nossa que é inegociável, e tomar posse dela.
Já pelo nosso próprio mal, acabamos jogando a "sujeira para debaixo do tapete" por tanto tempo, que uma ruptura brusca acontece para nos fazer acordar da ilusão e do entorpecimento — e não nos dá outra possibilidade senão olhar para aquilo que é real: nós mesmos. Uma perda? Uma dor? Um diagnóstico? É possível.
Depois que se percebe o abismo e a dor de não pertencermos a nós mesmos, qual caminho seguir?
A resposta para essa pergunta terá que vir de nós mesmos. Não existe um caminho único para todas as pessoas. Não deixe, de novo, que alguém te diga o que fazer. Aproveite a oportunidade e investigue a fundo aquilo que não serve mais. Esqueça o caminho estabelecido por outro. Não entregue sua vida e seu poder na mão de quem também não consegue fazer esse mergulho para dentro.
Eu sei, pode levar tempo, e não é um processo linear — mas é o seu processo, sua história, camada por camada, fazendo por você o que ninguém mais pode fazer.
O seu autoabandono já te levou por caminhos dolorosos diversas vezes: escolhas que não eram suas, mas de outro.
Afinal, para que está servindo tudo isso? Qual o mecanismo inconsciente que está roubando sua autenticidade e sua alegria de viver?
Nem sempre se aceitar é algo simples. Aprendemos, desde muito pequenos, que para sermos amados tínhamos que agradar os adultos — eles próprios, muitas vezes, ausentes de si mesmos, com aquele olhar de idealização sobre nós. Para pertencer, tínhamos que ser o ideal da nossa família. E assim crescemos querendo ser o objeto de idealização do outro, nos colocando distantes de nós mesmos. Crescemos acreditando que, se formos diferentes do que esperam de nós, não haverá aceitação — o que até pode acontecer.
No entanto, quando em algum momento da vida nos damos conta de que não somos esse ideal, por mais que queiramos ser (e estamos há tanto tempo tentando), nos encontramos desgastados, solitários, sem o afeto que de fato merecemos. Nos sentimos perdidos. Vem a dor de termos pretendido ser algo que não somos. E junto pode vir o luto por estarmos distantes da nossa própria idealização — daquela história que estamos acostumados a contar para nós mesmos todo dia.
Mas nem tudo é dor. Passado algum tempo, surge a sensação de nos descobrirmos, e despertamos da ilusão de ser algo para o mundo — passando a ser mais para nós mesmos. O que de fato podemos fazer por nós mesmos é mergulhar nessa descoberta, às vezes incerta, sem sabermos muito bem o que vai dar lá na frente, tecendo novas narrativas, mais conectados conosco mesmos — esperando que delas surja o afeto que vínhamos nos negando por tanto tempo. Procure ajuda se necessário, mas fuja de caminhos direcionados. Permita-se percorrer uma jornada só sua, de pertencimento e posse do seu Eu mais verdadeiro.
"Natalia Fioravante
Psicóloga
"Sermos nós mesmos faz com que acabemos excluídos pelos outros. No entanto, fazer o que os outros querem nos exila de nós mesmos."
Clarissa Pinkola Estés



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